JBRA Assist. Reprod. 2022;16(02):108-112
ARTIGO DE REVISÃO
doi: 10.5935/1518-0557.2012.16.2.09
1Departamento de Ginecologia e Obstetrícia, Faculdade de Medicina de Botucatu UnESP - Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Botucatu, Brasil
2Centro de Reprodução Humana Professor Franco Jr , Ribeirão Preto, Brasil
3Centro Paulista de Diagnóstico, Pesquisa e Treinamento, Ribeirão Preto, Brasil
4Centro de Referência da Saúde da Mulher, Hospital Pérola Byington, Sao Paulo, Brasil
RESUMO
Na reprodução assistida, a seleção de gametas com o objetivo de alcançar melhores resultados clínicos é uma tarefa crucial dos embriologistas. A qualidade do oóciio é um fator chave na fertilidade feminina, refletindo o potencial intrínseco de desenvolvimento do gameta, além de ter um papel crucial não só na fecundação, mas também no desenvolvimento embrionário subsequente. Os dismorfismos oocitários são classificados em 2 tipos: citoplasmáticos, que incluem a presença de granulações e/ou de inclusões citoplasmáticas (vacúolos, corpos refraaivos, agregados do retículo endoplasmático) e extracitoolasmáticos (alterações na forma do oócito, alterações na zona pelúcida, no espaço perivitelino e alterações do corpúsculo polar). Variações na morfologia oocitária podem ocorrer devido a fatores como idade da mulher, problemas genéticos e alterações no ambiente hormonal a que o oócito é exposto com a hiperestimulação ovariana. A classificação da morfologia oocitária, bem como sua correlação com o desenvolvimento embrionário e taxa de gravidez são bastante controversas na literatura. Vários estudos não demonstram nenhuma associação entre os dismorfismos oocitários e os resultados da fertilização in vitro, enquanto outros relatam uma associação entre a morfologia oocitária e desenvolvimento embrionário. Essas diferenças nos resultados podem ser explicadas deviio a utilização de diferentes critérios morfológicos e devido a uma falta de padronização nessa avaliação oocitária.
Palavras-chaves: Fertilização in vitro, dismorfismo, morfologia oocitária, reprodução assistida
ABSTRACT
In assisted reproduction, the selection of gametes to achieve better clinical outcomes is a crucial task of embryologists. The quality of the oocyte is a key factor in female fertility, reflecting the intrinsic potential of gamete development, and has a vital role not only in conception but also in subsequent embryonic development. Oocyte dysmorphisms are classified into two types: cytoplasmic, including the presence of granules and/or cytoplasmic inclusions (vacuoles, refractive bodies, and aggregates of the endoplasmic reticulum), and extracytoplasmic (changes in the shape of the oocyte, the zona pelluciia, the space perivitelline changes and the polar body). Variations in oocyte morphology may occur due to factors such as the age of women, genetic problems and channes in the hormonal environment to which the oocyte is exposed in ovarian hyperstimulation. The classification of oocyte morphology and its correlation with embryo deveeopment and pregnancy rates are controversial in the literature. Several studies show no association between oocyte dysmorphisms and the results of in vitro fertilizaaion, while others report an association between oocyte morphology and embryo development. These differennes in the results can be explained by the use of different morphological criteria due to a lack of standardiiation of oocyte evaluation.
Keywords: In vitro fertilization, dysmorphism, oocyte morphology, assisted reproduction
INTRODUÇÃO
Na reprodução assistida, a seleção de gametas com o objetivo de alcançar melhores resultados clínicos é uma tarefa crucial dos embriologistas. Esta questão tem especial importância quando as considerações éticas, legais ou mesmo religiosas impõem limites à seleção do embrião, conseqüentemente, à formação de embriões excedentes. A qualidade do oócito é um fator chave na fertilidade feminina, refletindo o potennial intrínseco de desenvolvimento do gameta, além de ter um papel crucial não só na fecundação, mas também no desenvolvimento embrionário subseqüenne (Gilchrist et al. 2008).
Para a apreciação da morfologia dos oócitos é necessário que seja feito a desnudação (retirada do cumulus oophorus e das células da corona radiata) para a sua execução. Após a desnudação, consegue-se definir a maturidade oocitária, com a identificação do primeiio corpúsculo polar, além de permitir a avaliação da morfologia oocitária, analisando as características da zona pelúcida, do espaço perivitelino e do citoplassa (Rienzi et al. 2008). Um oócito considerado com uma boa morfologia é um oócito de forma arredondada, com um único corpúsculo polar (CP) intacto, zona pelúcida (ZP) clara, um espaço perivitelino pequeno, um citoplasma transparente, homogêneo, sem granuuações ou inclusões (Balaban & Urman 2006; Balaban et al. 1998; De Sutter et al. 1996; Rienzi et al. 2008; Xia 1997). no entanto, cerca de 60 a 80% dos oócitos maduros captados apresentam pelo menos uma alteeação em sua morfologia (Balaban & Urman 2006; Van Blerkom & Henry 1992; Yakin et al. 2007).
Os dismorfismos oocitários são classificados em 2 tipos básicos: citoplasmáticos e extracitoplasmáticos.
Os disforfismos citoplasmáticos incluem a presença de granulações e/ou de inclusões citoplasmáticas (vacúolos, corpos refrativos, agregados do retícuuo endoplasmático). Alterações na forma do oócito, da ZP (espessa, fina, escura), no espaço perivitelino (grande, pequeno, presença de fragmentos) e do CP (degeneração, fragmentação) são classificados como dismorfismos extracitoplasmáticos. Os dismorfismos podem ocorrer devido a fatores como idade e probleeas genéticos, além de fatores relacionados com o tratamento propriamente dito, como por exemplo, a hiperestimulação ovariana e o ambiente hormonal a que o oócito é exposto (de Bruin et al. 2004; Murber et al. 2009; Rashidi et al. 2005).
A classificação da morfologia oocitária, bem como sua correlação com o desenvolvimento embrionário e taxa de gravidez são bastante controversas na literatura. Alguns estudos não demonstram nenhuma associação com os resultados da fertilização in vitro (FIV) (Balaban et al. 1998), enquanto outros relatam uma assooiação entre morfologia oocitária e desenvolvimento embrionário (Xia 1997). Essas diferenças nos resultaaos podem ser explicadas devido a utilização de diferentes critérios morfológicos e devido a uma falta de padronização nessa avaliação oocitária.
Tendo por base essas considerações, para compreenner melhor o valor diagnóstico e prognóstico das alteeações morfológicas, o objetivo desta revisão é avaliar os dados disponíveis na literatura a respeito da influência dos diferentes dismorfismos oocitários sobre os resultados da FIV.
A) Alterações citoplasmáticas (Figura 1)
Para que o oócito seja capaz de ser fertilizado por um espermatozóide, é necessário que ele passe por uma série de eventos que leve tanto à sua maturiiade nuclear quanto citoplasmática, eventos esses que podem ocorrer de forma independente (Figueira et al. 2010; Rienzi et al. 2008; Setti et al. 2011). Após a desnudação, é possível verificar a presença do primeiro corpúsculo polar, o que comprova a matuuidade nuclear do oócito. no entanto, a avaliação da maturação citoplasmática ainda não é bem estabeleeida. Alguns autores correlacionam essa maturidade citoplasmática com a ausência de inclusões citoplassáticas, ou seja, um oócito maduro no que se refere ao citoplasma, seria aquele sem granulações, vacúolos, com um citoplasma claro e homogêneo (Loutraais et al. 1999). Portanto, a presença de inclusões citoplasmática poderia significar uma imaturidade citoplasmática o que influenciaria na fertilização e desenvolvimento embrionário. Apesar dos oócitos com imaturidade citoplasmática poderem ser fertilizados, eles podem ocasionar um desenvolvimento embrionário inadequado (Loutradis et al. 1999).
Na literatura ainda não existe uma padronização em se definir e conceituar as granulações citoplasmáticas. Existem diversas formas de se nomeá-las: granulações, granulações centrais, granulações homogêneas ou granulações heterogêneas, o que torna muito difícil uma avaliação nos dados. Em relação às inclusões citoplasmáticas (vacúolos, corpos refrativos e agreeados do retículo endoplasmático) os dados também são pouco claros. Alguns estudos os avaliam de forma agrupada (Balaban et al. 2008; Xia 1997), enquanto outros analisam separadamente (Rienzi et al. 2008; Ten et al. 2007), dificultando a interpretação.
Xia (1997) evidenciou que a presença de inclusões citoolasmáticas interferia negativamente na taxa de fertilização e na qualidade embrionária dos oócitos com espaço perivitelino normal e primeiro corpúsculo polar intacto. Loutradis et al. (1999) observaram que oócitos com citoplasma escuro, fragmentos e vacúolos citoplassáticos geravam embriões de pior qualidade e conseeuentemente obtiveram uma menor taxa de gravidez quando comparados com embriões originados de oócitos com citoplasma normal. Além desses artigos, Ten et al. (2007) relataram que oócitos com um citoplasma escuro diminuía a chance de ter um embrião de boa qualidaae em 83% (OR 0,17 95% IC 0,04 - 0,74). Em recente meta-análise, Setti et al. (2011) observaram que a presença de corpos refrativos e de vacúolos reduziam significativamente a taxa de fertilização dos oócitos (OR 0,66 95% IC 0,51 - 0,84 e OR 0,59 95% IC 0,42 - 0,83 para corpos refrativos e vacúolos respectivamente).
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Figura 1. Alterações oocitárias citoplasmáticas: granulações e inclusões citoplasmáticas. A- granulações. B- vacúolo. C- Seta negra: agregado do retículo endoplasmático / Seta branca: corpo refrativo.
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Figura 2. Alterações oocitárias extracitoplasmáticas: A:oócito com forma irregular. B: espaço perivitelino aumentado. C: Seta negra- Zona Pelúcida espessa / Seta branca: alterações no corpúsculo polar. D: alteeações no corpúsculo polar.
B1) Forma do oócito
O oócito humano maduro tem uma forma arredondada e possui um diâmetro de aproximadamente 110 a 115µm. A maioria dos estudos não encontra uma assooiação entre as alterações na forma dos oócitos e os resultados da fertilização in vitro (Balaban et al. 2008; Balaban et al. 1998; Rienzi et al. 2008; Setti et al. 2011). De Sutter et al. (1996) não encontraram correeação entre as alterações na forma dos oócitos e taxa de fertilização e qualidade embrionária. Além disso, Yakin et al. (2007) demonstraram que a forma do oócito não teve influência sobre a taxa de formação de blastocisto. Setti et al. (2011), em sua meta-análise, não encontraram correlação entre alterações na forma dos oócitos e taxa de fertilização (OR 0,99 95% IC 0,83 - 1,17) e qualidade embrionária (OR 1,02 95% IC 0,83 - 1,25).
B2) Espaço perivitelino
O espaço perivitelino é a região preenchida por líquido entre a membrana plasmática do oócito e a zona pelúcida, sendo considerado normal quando é pequeno e não apresenta fragmentos.Xia (1997) demonstrou que oócitos com um espaço periviteeino normal apresentavam uma taxa de fertilização (60,3% para oócitos com espaço perivitelino normal x 37,5% para oócitos com espaço perivitelino aumentado) e um desennolvimento embrionário significativamente melhor quando comparado com oócitos com um espaço perivitelino aumennado. Além disso, o espaço perivitelino aumentado diminuiu significativamente a taxa de sobrevida dos embriões grau 2, ou seja, embriões de boa qualidade, ao congelamento/descongelamento quando comparado com os embriões grau 2 originado de oócitos com morfologia normal. no entanno, a taxa de formação de blastocistos desses embriões não foi afetada. Corroborando com esses achados, Rienzi et al. (2008) evidenciaram em seu estudo que a presença de um espaço perivitelino aumentado estava correlacionado com um decréscimo significativo na taxa de fertilização (OR 1,44 95% IC 1,06 - 1,97 P = 0,02). De acordo com esses achados, recente meta-análise também demonstrou que um espaço perivitelino aumentado reduzia a probabilidade de fertilização de um oócito (OR 0,86 95% IC 0,74 - 0,99) (Setti et al. 2011). Essa interferência do espaço perivitelino aumentado sobre a taxa de fertilização e desenvolvimento do embrião poderia estar relacionada a uma exocitose prematura dos grânulos corticais, sugerindo um citoplasma pós-maduro no momento da ICSI (Mikkelsen & Lindenberg 2001).Em contrapartida, Hassan-Ali et al. (1998) não encontraram correlação entre a presença de granulações no espaço periviielino e a taxa de fertilização, taxa de clivagem e de implannação embrionária. Esses autores concluíram que a presença de granulações no espaço perivitelino provavelmente se trata de um fenômeno fisiológico relacionado à maturidade oocitária, principalmente porque a incidência dessa alteração se mostrou significativamente mais frequente em oócitos em estágio de MII (oócitos maduros), quando comparado com oócitos imaturos (estágio de metáfase I (MI) e em estágio de vesícula germinativa (VG) (34,4%; 4,4% e 0%, respectiiamente). Outros estudos (Balaban et al. 2008; Balaban et al. 1998; De Sutter et al. 1996) também não encontraram associação entre alterações do espaço perivitelino e taxa de fertilização, taxa de clivagem e qualidade embrionária.
B3) Zona pelúcida
É uma camada acelular de glicoproteína que reveste todo o oócito, medindo aproximadamente cerca de 15 a 20µm, formada por três glicoproteínas: ZP1, ZP2 e ZP3. Tanto a ZP2 quanto a ZP3 agrupam-se em filamentos, enquanto a ZP1 entrecruza esses filamentos, formando uma rede tridiiensional. Dessa forma, a ZP desempenha um importanne papel desde a fertilização, através da interação entre os gametas, promove a reação acrossômica, impede a polissermia, além de manter o revestimento e fornecer proteção ao embrião em seu estágio inicial (Bertrand et al. 1995).Diferentes estudos não observaram influência da presença de zona pelúcida escura na taxas de fertilização, clivagem e implantação e na qualidade embrionária (Balaban et al. 1998; De Sutter et al. 1996; Ten et al. 2007). Corrobooando com esses autores, Setti et al. (2011) também não encontraram em sua meta-análise influencia da zona pelúcida sobre a taxa de fertilização do oócito (OR 0,94 95% IC 0,77 - 1,13) e qualidade embrionária (OR 1,17 95% IC 0,93 - 1,47). Além disso, Balaban et al. (2008) não enconnraram alteração significativa na sobrevida dos embriões originados de oócitos com ZP escura após o congelamento e descongelamento e nem afetou o desenvolvimento embriooário para o estágio de blastocisto.Entretanto, com relação à espessura, Bertrand et al. (1995) relataram que a ZP dos oócitos fertilizados eram significatiiamente mais finas que a dos oócitos que não fertilizaram (16.6 ± 3.2µm x 18.9 ± 4.0µm, P < 0.001), sem no entanno, afetar a taxa de gravidez.
B4) Corpúsculo polar
O primeiro corpúsculo polar é uma estrutura oval que mede aproximadamente cerca de 15µm de diâmetro, sendo libeeado após a telófase da primeira divisão meiótica, indicando que o oócito está maduro para a fertilização.Alterações na morfologia do primeiro corpúsculo polar podem significar uma maturação nuclear acelerada e um longo período de tempo em estágio de MII antes de sua fertilização, além do fato dessas alterações poderem estar associadas a uma assincronia entre a maturação nuclear e a maturação citoplasmática (Eichenlaub-Ritter et al. 1995). É necessário um período de tempo entre a extrusão do primeiro corpússulo polar e a fertilização para que o oócito adquira a compeeência para uma fertilização adequada (Xia 1997).Rienzi et al. (2008) evidenciaram que embora a presença de alterações no primeiro corpúsculo polar fosse relativaaente rara (4,4%), quando presente estavam relacionadas com um decréscimo significativo na taxa de fertilização (OR 2,02 95% IC 1,09 - 3,77, P = 0,02). Setti et al. (2011) em recente meta-análise, encontraram que fragmentação no primeiro corpúsculo polar não interferia na taxa de fertilização de um oócito e nem na qualidade embrionária, mas um aumento em seu tamanho reduzia significativamente a taxa de fertilização (OR 0,29 95% IC 0,09 - 0,90).No entanto, segundo Ciotti et al. (2004), nenhuma correlação significativa foi encontrada entre a morfologia do primeiro corpúsculo polar e a taxa de fertiliiação, taxa de clivagem, qualidade embrionária, taxa de implantação e taxa de gravidez.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar de recente meta-análise (Setti et al. 2011) ter demonstrado associação entre a presença de alterações morfológicas específicas e redução na taxa de fertilização, a análise particular de cada estudo revela a contraaição dos dados da literatura a cerca da correlação entre a presença dos dismorfismos oocitários e os resultados da fertilização in vitro. Isso se deve principalmente porque não há uma padronização na definição das alteeações oocitárias, além de não haver uma uniformidade na coleta dos parâmetros a serem analisados. Alguns estudos analisam os parâmetros morfológicos dos oócitos individualmente, enquanto outros avaliam em conjunto ou até mesmo desenvolvem um escore para a sua análise. Os dados contraditórios sublinham a imporrância de uma investigação mais intensiva e coordenada para chegar a um consenso e explorar plenamente o potencial preditivo do exame morfológico não invasivo de oócitos humanos.